setembro 07, 2010

Uma vida

Acordar cedo não era um problema até alguns dias atrás. Falando com exatidão de tempo, 17 dias com o sentimento de preguiça descomunal de manhã. Nada tem sido pior que o despertador, o carrasco dos meus dias! Já tentei mudar a música, o volume e a hora de tocar... não funcionou!

Chega então o momento de refletir sobre o problema. Culpei a vida! O que me levou a mais outro grande momento de reflexão, sobre o que é preciso para melhorar. O resultado não foi animador, o final da linha é: O problema é a vida e a solução pra isso é ter uma vida! Confuso, mas no fundo tem um sentido pertubador. E, finalmente, tem-se o estágio da aplicação.

Já não sei mais o que pensar, só que me falta viver. O que redime a vida da sua culpa! E volto ao ponto inicial. O que eu preciso fazer para sair dessa situação? E aqui vou eu, mais um pouco de reflexão.

Quero uma vida! Mais feliz, menos trabalhosa, mais lenta, menos turbulenta, mais uma monte de coisa e menos outro monte do mesmo tamanho. E, então, ver que eu quero mais e menos das mesmas coisas, a eterna busca pelo equilíbrio. Mas e o tempo? Será que tenho o suficiente para achar esse ponto? Seria uma perda de tempo? E o equilíbrio seria a felicidade plena ou apenas o ponto onde ela e seu oposto estão de mãos dadas? Eis o momento engraçado, pensar na vida como uma balança, onde tudo o que preciso fazer é equilibrar pratos!

Talvez seja hora de parar o tempo, olhar para a minha balança e trabalhar um pouco mais nela. Ou, quem sabe, é só mudar a música do meu despertador de novo. Se der errado, eu penso em outra depois, deve existir uma música própria para isso! Eu vou encontrá-la!!!

julho 05, 2010

Outra vez

Uma conversa de amigos. Ela falava dos acontecimentos da semana. Ele escutava atentamente. Um papo com o melhor amigo. Mãos frias e o coração apertado só da possibilidade de tentar um passo a mais na amizade. Risadas e gestos espalhafatosos. Nervosismo. A história sobre a amiga em comum. A coragem de se declarar naquele instante. E os olhares se cruzaram. Ele com os olhos brilhando. Ela com um sorriso no rosto e começando um novo comentário. Dois mundos se encontraram. O azul sobre o vermelho. O amor e a amizade. Colisão. Fragmentos distintos.

Ela se levantou. Colocou a mão sobre o ombro dele. Um beijo no rosto. Adeus. Os olhos o traíram. Preocupada, sentiu-se culpada, mesmo sem saber se tinha feito algo de errado. Enxugou os olhos na manga da camisa, balançou a cabeça algumas vezes. Mentiu que sentia falta de seu cão que morrera 6 meses atrás. Ela fingiu acreditar e seguiu seu caminho. Ele seguiu o dele.

Uma mesma direção. Sentidos opostos. Ela se perguntando o que teria feito. Ele se declarando em pensamentos, de novo.







"It's such a situation in where you're stuck in your own time
We called it obligation to admit that we are fine"

junho 13, 2010

Reviravolta

Olhou a primeira vez como um todo. Na segunda, focou o lado esquerdo e, vagarosamente, percorreu toda a extensão até a direita. No fim, a mesma conclusão. Não tinha entendido nada! Esforçou-se um pouco mais. Em vão... Fazia tempo que não se sentia tão perdido.

Fechou levemente os olhos. Respirou profundamente. Acalmou-se! Mas o entendimento não brotou daí. Fez uma careta, balançou a cabeça. Não queria acreditar naquilo que acabara de pensar. Sentiu-se um masoquista!

Jogou de ombros e abriu um sorriso descontente. Estudar tornou-se uma necessidade!

- Quem me dera ainda fosse uma opção!!!

maio 14, 2010

Livraria

Foi o primeiro dia. Em muito tempo, foi a primeira vez que o fato de ela não estar lá significou tanto! Lágrimas sinceras e um coração apertado. Pensava que conseguiria suportar, estava enganado, a dor da ausência se mostrou mais forte.

Puxou uma cadeira da mesa do lado. Tentou ao máximo não fazer barulho. Buscou nos arredores. Era verdade, ela não estava ali! Tateou os bolsos. Lá no fundo estava o anel dela. Frio! Enxugou os olhos com as mangas de sua camisa, deixando alguns pontos em um azul mais escuro. Levantou-se, percorreu algumas prateleiras. O cheiro o fazia lembrar dos bons momentos. Finalmente encontrou o que procurava.

Retirou um exemplar de "A Paixão Segundo G.H.", de Clarice Lispector. Lembrou-se da barata, dos olhos da barata, do sabor salgado de se ler aquele livro. Pensou na pessoa ausente e, então, seus olhos tornaram-se salgados. Começou a ler. Cada palavra foi uma lágrima! Voltou para a cadeira de antes, apoiou o livro sobre a mesa. Afogou-se nos parágrafos.

Fechou o exemplar. Abandonou-o lá. Foi para casa. Sem ela não era a mesma coisa!


Para uma amiga

abril 27, 2010

Um novo começo

Uma noite fria que os envolvia. Palavras ditas. Imagens estilhaçadas. Um olhando para o outro. A nítida visão de um estranho. Várias mentiras. Pouca esperança.

O ar transportava aquele sentimento e logo os pulmões se encheram dele. A esperança deu seu último grito desesperado. Vocábulos proferidos. Incoerência transmitida. O sopro frio da decepção. E desejou o desespero. Não para si, o seu já era suficiente. Proferiu palavras distorcidas, mas não mais do que aquelas que escutou.

Caminhos diferentes. Sentimentos adulterados. Passos firmes. Olhos sem brilho. Corações dilacerados. E restou apenas a noite.

abril 21, 2010

Simples Amor

Os dois estavam deitados lado a lado. Ela dormia enquanto ele tentava fugir dos pensamentos que o atormentavam. A claridade de início de dia. Ele sentou-se na cama, olhando para a parceira. Fora uma noite maravilhosa, lembraria-se dela por algum tempo ou por apenas até a próxima. Levantou-se lentamente para não acordá-la. Sentou-se numa cadeira que havia perto de uma mesa. Escreveu algumas palavras. Arrependeu-se. Com algumas rasuras e umidade, ficou pronta a carta de despedida. Colocou-a na cama, vestiu-se. Um beijo sincero. Antes de sair, deixou algum dinheiro sobre a mesa. E, cuidadosamente, abandonou-a.

Fez o caminho de volta para casa. Pensou nela, pensou em si, pensou em nada. Uma noite para recordar! Não ligou o rádio, apenas olhava inquieto para o celular, temia receber uma ligação naquele momento. Andou algumas ruas a mais do que deveria. Voltou e parou, na frente de sua casa. Nada rebuscado ou muito deprimente. Estacionou. Um novo dia!

Chegou ainda em tempo de ver os filhos antes de irem para a escola. A mulher preparava o café enquanto interessava-se em saber sobre a longa jornada de trabalho do marido. Ele falou sobre documentos e memorandos. Ela olhava com piedade. Não era um bom mentiroso, não depois de tantos anos. Serviu-o, beijou-lhe e foi terminar de se arrumar. Já pronta, ele deitado na cama, cansado. Sentou-se ao lado e beijou-o novamente. Saiu.

Um sorriso sincero. Ele a tinha escolhido aquela manhã.



"If I had a heart, I could love you
If I had a voice, I would sing
After the night, when I wake up
I'll see what tomorrow brings"

abril 13, 2010

Cinética

Saiu de casa disposto a resolver a situação. Passadas largas e fortes marcavam sua marcha rumo ao paraíso iminente de uma resolução. O sol de início de tarde estava escaldante e, juntamente com um clima seco, foi responsável por uma leve tontura. Mas ele estava convicto do que faria! Chegaria lá, falaria tudo que tinha ficado desde aquele último encontro.

Tudo estava claro e, agora, tornava-se quente. Ficou difícil de se pensar. Os olhos não respeitavam os limites da realidade. Foi melhor sentar-se na cadeira de uma sorveteria. Um sorvete cairia bem!

Sentado, direcionava seu olhar para a rua. Observava cada pessoa que passava por ali. Em todas, via o motivo da sua falta de solução! Realmente estava delirando! Talvez fosse hora de procurar um médico para tratar disso, mas não conhecia um especialista em coração (...) não no seu (...) Parar de pensar era a melhor medida a se tomar.


- Um sorvete de limão, por favor! - fez seu pedido

E logo a jovem garçonete anotou e foi providenciar o pedido. Deixou o jovem lá sentado. Do balcão, um leve sorriso e olhos brilhantes. Preferiu não entender o porquê dos 10 minutos entre sua pergunta e a resposta do moço!

abril 12, 2010

Guerra

Um sopro de Morpheus o fez pestanejar pela primeira vez, a partir de então, o sono tomou forma e o acompanhou de perto pelo resto daquela noite. Bocejos! Piscadas profundas, que pelo tempo de duração, mais pareciam leves cochilos. Estava perdendo a batalha, logo cairia derrotado na cama e desmaiaria. Depois de tanto tempo sem usufruir de uma noite de sono, não queria se render agora, não sem lutar bravamente!

Leves tapinhas no rosto. Um copo de água gelada enquanto esperava outra ferver para fazer o café. Comeu alguns biscoitinhos nesse meio tempo. Tão logo pôde sentir o aroma quente e forte de sua bebida a ser preparada, percebeu o sabor amargo do futuro próximo.


"Wake up and smell the coffee!"

abril 03, 2010

Acontece

Cinza. Assim começou seu primeiro dia de férias! Pesadas nuvens cobriam o céu aquela manhã e era impossivel acreditar em qualquer futuro seco. A indecisão! Seria esse início de maneira tão parada e fechada? Um dia todo dentro de casa? Preferiu se lançar na possibilidade ínfima.

Uma roupa leve. Tênis. Quando a 10m de casa, descobriu não ser um bom dia para probabilidades tão baixas. Desabou o céu! De quando em quando, clarões iluminavam fracamente a manhã cinzenta. Já ensopado, retornou ao lar, era hora de pensar em outra solução para salvar seu dia.

Após um banho quente, percebeu que a chuva havia parado. Maldito momento para não se ter um carro! Arriscaria uma segunda vez. Vestiu-se mais coberto e seu companheiro guarda-chuva o acompanharia. Apressou-se em sair de casa, caminhava rápido. Chegaria ao ponto de ônibus antes de qualquer surpresa desagradável? Fez! Ali estava ele, num lugar coberto, seco, assistindo, seguro, a falta de sorte de outras pessoas.

Passaram-se 30 minutos de chuva. O coletivo já estava atrasado. Ali de pé, assistiu ao espetáculo da natureza. Caira um raio nas proximidades, um clarão indicava isso, seguido rapidamente por um barulho ensurdecedor. Nunca imaginou que esse tipo de coisa acontecesse por ali, no centro da cidade. A curiosidade começou a consumi-lo. Abriu o guarda-chuva e atrasou um pouco mais o início do seu dia. Percebeu a movimentação de uma ambulância. Foi então que chegou ao local.

Uma árvore destruída. Ao lado, estava um corpo carbonizado. Do outro lado da rua, uma pequena multidão já se formava para apreciar. Juntou-se a ela. O socorro terminou seu serviço e partiu. Os espectadores se dispersaram. Ele ficou. Aproximou-se então da árvore e, ali no chão, escondido em meio aos pedaços de carvão, avistou algo brilhante. Uma moeda. Parecia ser antiga. Guardou-a no bolso e decidiu retomar seus planos.

De volta ao ponto, seu ônibus chegou. Embarcou. Alguns minutos de trânsito pesado. Chegou finalmente ao seu destino. Pensou na vítima daquele raio. Seria seu primeiro dia de férias?

Seguiu seu caminho. Cinema. Livraria. Café. Ponto de ônibus. E rumou de volta para casa.
No balançar da viagem, lembrou-se da moeda. Tirou-a do bolso, não era antiga, estava apenas suja. Não passava de 50 centavos. Riu para si e guardou-a novamente. Parece que tivera sorte com ela, reconheceu que não muita. Pelo menos, seu dia teve algum valor!

março 22, 2010

As Cinzas

O dia desde cedo já não parecia normal, talvez fosse os pensamentos do que estaria por vir ou talvez fosse o dia mesmo, em que tudo estava atípico. Não dava vontade de fazer nada, a não ser tentar se livrar dos pensamentos recorrentes. Parecia que quanto mais esforço se fazia para eliminar tais pensamentos, mais eles se firmavam em sua mente. Queria apenas entender o porquê de se sentir daquele jeito. Os desejos eram claros, queria muito poder estar em um lugar no qual não estava presente!
No fundo sabia que em cinzas se transformou o dia que era para ter sido um dos mais memoráveis de sua existência.
Não tinha raiva, nem pensamentos ruins, só estava inconformada com o destino, que mais uma vez decidia por si só uma decisão que tinha que ser pessoal. Sorte? Azar? Não importa, o fato é que aquilo que havia desejado há muito, não se realizaria mais.
Só se sabe que pegou a taça de vinho, sentou-se na varanda e em cada gole foi observando a chuva que insistia em cair como se fossem suas próprias lágrimas, agora sim, podia-se dizer que estava em paz com seus pensamentos.

março 19, 2010

Amor Simples

Um beijo de adeus! Sobre a cama, apenas uns poucos rabiscos, palavras simples e uma mensagem direta. Seria indiscutível se não fossem os borrões e as rasuras. Era de manhã e nossa heroína estava adormecida ao lado do recado. Seu parceiro a deixou ali, tudo pago.

Acordou com um ar jovial. Sentou-se na cama, procurou-o pelo quarto, nenhum sinal. Ao se levantar, percebeu ali o papel. Ali mesmo, tomou-o nas mãos, olhou o ambiente mais uma vez. Entregou-se à leitura. Olhos marejados e um leve sorriso. Poderia odiá-lo, amaldiçoá-lo pela eternidade, optou por um banho demorado.

Os cabelos ainda molhados com a roupa já no corpo. Recolheu seus pertences, apropriou-se das notas deixadas sobre a mesa de canto. Fechou a porta. Trancou o sentimento. Saiu dali direto para o ponto de ônibus mais próximo. Estava longe de casa, gastaria pelo menos duas conduções. Agradeceu o dinheiro deixado por ele.

Horas de balanço e esbarrões. O doce sentimento de se chegar ao lar. As amigas ainda dormiam. Retirou as roupas de trabalho, acomodou-se em seu colchão gasto, mas o mais confortável que poderia desejar. De debaixo da cama, tirou uma caixinha, abriu-a e lá depositou o bilhete que trouxe preso junto ao seio, não antes de dar-lhe um último beijo, sem nem mesmo saber que recebera o seu aquela manhã... Um novo amor a esperava mais tarde.


"In this world that we know
There's nothing that could make
A decent woman of a girl like you"


março 01, 2010

O Sono

O sol escaldante. A brisa fria da noite. O silêncio que cultivava em todos os momento.

Era uma noite sem estrelas. O céu sem brilho ou cobertura. Onde estaria a lua? Teria tirado a noite de folga? Da janela do quarto avistava o outro lado da rua, o céu e era possível espionar a sala dos vizinhos de frente. Pena não ter um binóculo! Acho que o meu sono deva ter convidado a lua para um jantar! Espanto! Da onde surgira aquele gato? Lá estava ele, sentado e imóvel. Aqueles olhos amarelos. Profundos. Vazios.Pernas na cama. Patas na calçada. O dedo contra o vidro fazendo os mesmo movimentos sinuosos do outro lado. O silêncio absoluto. Não mais o bater de asas ou o ranger da madeira. Agora só há silêncio. Até mesmo o vento parara para apreciar o momento. Duas figuras petrificadas. Agora a estática. Nenhum movimento. A árvore da frente, a última brisa a soprar, o verde do fruto que se desprende, o som oco inaudível. Então tudo se estilhaça. E, por fim, restam apenas dois cacos.Estaria ele em um lugar novo? Seria aquilo o que ele tanto temia? O que era aquele gato?

Perguntas... nenhuma resposta audível. E do amarelo tudo se brota. Medo. Angustia. Solidão. Carinho. Sentia tudo, era capaz de sentir o silencio. Os olhos que agora o tocavam. Seriam eles?
E os pedaços se colam. O amarelo se perde, o gato que se foi! Tudo o que perdeu. Os olhos marejados, os punhos fechados, a boca aberta, o silêncio. Os olhos se fecham. O pequeno ribeirão avançando sobre a terra seca.

A luz seguiu os passos do som!
(...)

fevereiro 22, 2010

Caçador - Capítulo IV - Final

Sábado, 30 de janeiro

Acabei por acordar mais tarde do que de costume. Para minha sorte, meu vôo só sairia à tarde. Rufus já estava de pé, enquanto eu me levantava para tomar um bom banho. Foi um banho revigorante, a mesa do café já estava posta quando saí. Vesti-me e aproveitei aquela pequena refeição, tinha muito que fazer com minhas malas e decidir se realmente voltaria para buscar aquele que era meu prêmio pela caçada.


Muito pensei e organizei durante a manhã. Como num passe de mágica, já era hora do almoço e eu ainda não tinha decidido ou mesmo terminado de preparar tudo. Comi rápido e voltei a meus afazeres, mas a pele do felino ainda era uma grande indecisão. Já que a hora do meu vôo se aproximava, deixei o assunto trancafiado na mente até outra oportunidade.

Saímos um pouco atrasados, o que obrigou Rufus a dirigir um pouco mais rápido. Cheguei ao aeroporto ainda com tempo para um cafezinho de despedida. Sentamo-nos ali em um Cafe e conversamos uns poucos minutos na espera do tempo passar. Meu amigo comentou muito sobre nossa caçada, preferi manter-me calado e apenas concordar com todos os adjetivos usados por ele. Não estava confortável com o assunto tratado e acredito que ele percebeu isso. Logo falávamos sobre trabalho e quando eu voltaria ali para visitá-lo. Enrolei para responder a tudo isso e ficou sem resposta. Era hora do embarque e apressei-me em me despedir e ir em direção ao avião.

Foi um vôo tranqüilo o suficiente para que eu descansasse um pouco mais e colocasse as idéias em ordem. Foram horas de filosofia! Cada vez mais, estava certo que aquele prêmio deveria ficar com Rufus. E foi então, movido pela curiosidade desnecessária, coloquei-me a pensar de quem seria o tiro que matou o felino. Impossível que eu soubesse, fechara meus olhos no momento. Foi o suficiente para me ocupar o restante da viagem.

De volta em casa, encontrei tudo em ordem. Deixei para desfazer as malas depois. Sentei-me na poltrona e voltei a matutar sobre os tiros. Certos momentos, até me alegrei em pensar que poderia ser um dos meus 2 tiros que acertou a caça. Depois, acreditava que tinha errado e que Rufus fora o grande caçador da noite. Adormeci assim. Um leve sono de minutos e os olhos amarelos do felino preenchiam meus pensamentos. O vermelho tingia vagarosamente aquela imagem. Acordei. Tinha tomado minha decisão, mesmo preferindo acreditar que o destino a tomou por mim.

Escrevi uma carta rápida a Rufus, contando da minha chegada e desejando a ele felicidades e que aproveitasse a pele. Era dele agora, se lá voltasse, não seria para buscá-la e me sentiria ofendido se ele insistisse.

Meu sono ficou um pouco prejudicado pelo dia de hoje. Estou aqui em claro, com a carta selada ao meu lado. Creio que chegou a hora de convencer-me que aquela não era minha noite de Caçador e que o prêmio deve ser e outro! Dormir agora e esperar pela próxima oportunidade...

fevereiro 02, 2010

Caçador - Capítulo III

Sexta, 29 de janeiro
A madrugada foi tumultuada. Seguimos aquela primeira pista e acabamos por constatar que era bem nova. A ansiedade estava em alta novamente. Cada passo poderia guardar o encontro com o felino. Pequenas gotículas de suor surgiam em nossas frontes e a leve brisa que antes nos embalava tornou-se mais forte e começava a nos empurrar em direção ao perigo.

Perdi a noção temporal, não sei quanto tempo ficamos nessa labuta. Ruídos quebraram o clima formado. Olhos e ouvidos aguçados. As mãos tremiam inexplicavelmente. Tamanho era o nervosismo que foram quase 2 tiros acidentais. De repente, fomos agraciados com a primeira vista de nosso alvo. Era um jovem felino, garras gastas e uma pelagem brilhante. Os dentes amarelos não nos deixava esquecer sua ferocidade. Ele caminhava lentamente logo a frente, parecia que nos chamava à caçada. Nos posicionamos ali mesmos, deitados sobre a vegetação mais baixa. Preparamos as armas e miramos o alvo. Um tiro certeiro ou voltaríamos para casa sem prêmio. Misteriosamente, nosso felino parou. Posso jurar que ela nos viu, mas ficou imóvel, esperando nossa ação. Esperando a morte! Um calafrio percorreu todo meu corpo. Mantive a postura e a mira.

Sentia o peso daquele olhar amarelo. Meu dedo pesava no gatilho. Não sei se esperava o momento certo ou simplesmente desistira de atirar. Aquele momento cresceu, logo só existia um felino e dois caçadores. Pode parecer estranho, mas acho que fechei os olhos quando disparei, pois não tenho lembranças visuais desse acontecimento. Foram dois ruídos secos.

Tanto eu quanto Rufus atiramos. Um tiro certeiro. Outro nem sabemos onde foi parar. E a nossa caça estava a chão. Toda sua imponência desmoronou! A pelagem amarela ganhou um novo brilho vermelho. Os olhos ainda abertos! Rufus me chamou de volta a realidade pedindo ajuda para preparar nosso troféu para o transporte. Retiramos as víceras tentando não danificar muito a pele. Impressionante como, mesmo oco, ainda era pesado. Com dificuldade, chegamos de volta ao campo aberto por onde viemos. A madrugada parecia se alongar, tentando encobrir nossa ação que começou a me parecer um tanto quanto repugnante.

Com os primeiro raios do sol, alcançamos o carro. Arrumamos o corpo do felino no automóvel. Meu estômago reclamou um pouco, poderia ser a situação toda, mas preferi acreditar na fome. Não demorou muito e pegamos o caminho de volta para casa. Foi uma viagem sem muitas palavras. Mesmo com aquele sentimento, não conseguia esconder meu sorriso de satisfação do sucesso da nossa aventura. Parecia-me que meu amigo tinha o mesmo sentimento. Aproveitávamos individualmente o nosso dever cumprido!


Não demoramos a chegar. O caminho de volta pareceu bem mais curto. Descarregamos o corpo e começamos o ritual de preparação do troféu. Poderia gastar muitas linhas e relembrar minuciosamente todos os detalhes, mas meu estômago não vai me permitir isso. Prefiro deixar registrado que conseguimos uma boa pele, os dentes foram extraídos e tratados. Meu amigo preferiu guardar a cabeça empalhada como troféu. Achei melhor não ajudar na empalhação. Colocamos a pele para secar e guardei comigo os dentes. Já era hora de arrumar meus pertences para realizar a volta para minha verdadeira casa.

Meu amigo faz questão que eu fique com a pele e espere até o dia de levá-la. Estou inclinado a recusar a oferta de ficar até lá, mas aprecio bastante ter esse prêmio. Vou propor que ele cuide do prêmio até meu retorno, que prometo que não demorará muito. Desde o início não me demoraria muito por aqui, tenho assuntos urgentes a tratar. Espero que ele entenda e que aproveite o quanto puder dessa pele!

Agora, vou terminar minha mala. Quero sair cedo amanhã. Não está tarde ainda, anoiteceu agora a pouco, mas a caçada pesa-me nas costas e no coração. Que eu tenha uma boa noite de sono!

fevereiro 01, 2010

Caçador - Capítulo II

Quinta, 28 de Janeiro
Acordei cedo, mesmo sem ter dormido satisfatoriamente. A ansiedade era evidente. Vesti-me. Uma última olhada nas armas e mantimentos. Era ainda madrugada e eu já estava sentado numa cadeira na sala, carregando um rifle e esperando a hora de sairmos. Acho que fiz muito barulho na minha arrumação, pois poucos minutos se passaram e meu amigo apareceu ali na sala, com cara de sono, parecia que acabara de acordar. Ele percebeu a minha ansiedade e, como já havia acordado, começou a se preparar.

Antes do nascer do sol já estávamos na estrada. Foi uma viagem rápida de apenas 3 horas de automóvel, logo chegamos ao local, acompanhados pelos primeiros raios de sol. Ali retiramos tudo do carro, dividimos igualitariamente a bagagem e rumamos por um campo aberto em direção a um conjunto de árvores lá na frente. Era uma caminhada difícil. Muito peso para carregar, terreno acidentado, vegetação alta que quase nos encobria.

Conseguimos espantar toda e qualquer caça que pudesse se esconder em meio aquele mato, tamanho o barulho que fizemos na nossa tragetória. Pela minha contagem, foram 4 quedas minhas contra 5 de Rufus. Alguns arranhões mas nada que pudesse atrapalhar nossa diversão. Rimos um do outro e tentávamos conversar o mínimo possível para não atrapalhar a caça! Esquecemos que cada uma de nossas quedas era acompanhada de muito ruído, não seria uma conversa que causaria problemas.

Finalmente chegamos próximo o suficiente do pequeno bosque. Rapidamente, deixamos todas as armas preparadas para uso, não queriamos perder a oportunidade de voltar para casa com um troféu. Tudo preparado, era hora de sair e encontrar nosso alvo. Pelo que Rufus tinha falado, deveriamos encontrar algum grande felino por ali, já até tinha feito planos em relação a pele e aos dentes.

Saímos caminhando sorrateiramente para dentro do bosque. Parávamos para observar de tempos em tempos, procurando por rastros. Vimos vários tipos de pássaros, muitos, realmente muitos insetos, era impossível pensar devido ao zunido ensurdecedor. A manhã se passou sem que tivéssemos encontrado pista melhor do que as marcas das picadas de inseto em nossos rostos. Paramos e arrumamos algo para comer. Menos de uma hora e já estávamos de volta à caça. Nosso objetivo era encontrar o felino maldito, matando quantos mosquitos fosse necessário para que isso acontecesse!

A tarde não foi muito melhor que a manhã. Nenhum rastro e muitos insetos! A noite caia e continuávamos a procurar. Já está tarde e acabamos de encontrar algumas pegadas. Não parecem recentes, mas já é alguma coisa. No exato momento estamos jantando e estou aqui relatando o dia. Meu amigo já me olha furioso, sei que estou atrasando o retorno à caça mas preciso mesmo fazer relatos.

janeiro 30, 2010

Caçador - Capítulo I

Domingo, 24 de janeiro
Hoje forcei-me a uma aventura. Em meio à calmaria de janeiro, sou convocado a uma grande caçada. Tornei-me adepto desse esporte não faz muito tempo, cerca de 2 anos. Dessa vez foi difícil decidir-me entre duas convocações para diferentes destinos. Optei pela de maior proximidade e facilidade de acesso, visto que não dispunha de tanto tempo para lançar-me em uma caçada.

Segunda, 25 de janeiro
Programei exatamente a data da viagem, comuniquei minha família a respeito. Decidi partir para chegar com um dia de antecedência. Deixei a viagem marcada para amanhã, durante a noite. Espero conseguir preparar tudo a tempo. É uma viagem longa e cansativa, quero descansar antes do grande dia.

Terça, 26 de janeiro
Estou esperando a chamada de embarque para o meu vôo. Passei o dia todo arrumando malas, armas e munição. Creio que consegui preparar tudo. Estou ansioso para que chegue o momento, quero sentir o prazer de uma boa caçada. Acabo de lembrar que ainda não liguei para meu amigo para informá-lo da minha chegada. É hora de embarcar, que seja um vôo tranqüilo.

Quarta, 27 de janeiro.
A viagem durante a noite não foi das mais confortáveis. Algumas turbulências e o acompanhante da poltrona ao lado não era, nem de perto, dos mais comunicativos. Se me consideram calado, ele era a personificação da expressão "minha boca é um túmulo"!Cheguei 1 hora mais cedo que o previsto e Rufus, meu amigo, ainda não estava a me esperar. Busquei um telefone. O dia estava nublado e nada convidativo para longas caminhadas ou uma procura por aparelho de telefone a céu aberto. Por sorte, encontrei um bom aparelho e soube que meu amigo já estava a caminho. Esperei sentado em um banco.Não demorou muito e Rufus apareceu. Estava com seu automóvel. Confortável e veloz, considerando meu costume com carroças! Logo estávamos conversando sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas e relembrando fatos do passado. Contei-lhe as novidades sobre meu pai que estava em tratamento e ele relatou como passara os últimos meses. Logo chegamos em sua casa (na qual também morei quando éramos universitários, ele continuou por ali um tempo mais), pude organizar meus pertences e relembrar daquele ambiente. Já era hora do almoço e fomos a um velho restaurante por ali. Incrivelmente, o bairro continuava praticamente o mesmo. Apenas algumas árvores faltando e o efeito do tempo nas casas que não foram reformadas.

A comida era exatamente como me lembrava. Os mesmos sabor e textura! Conversamos durante a refeição e aproveitamos para combinar a viagem do dia seguinte, iríamos de automóvel até uma cidade do interior e dali seguiríamos a pé para começar a caçada.De volta a casa, tomei um banho rápido e deitei-me para descansar um pouco. Acordei agora pouco e comecei os preparativos do meu uniforme de caça. Calça e camisa passadas com quase perfeição. Chapéu limpo e botas limpas e brilhando. Arrumei tudo até que rápido, escureceu não faz muito tempo e já estou esperando a hora da janta para dormir satisfeito. Vou ali ver se a comida já ficou pronta!
Amanhã será um dia ocupado!

janeiro 25, 2010

As primeiras cinzas

Estava eu em uma caminhada noturna. Ruas vazias. Noite nublada. Silêncio. Ao longe, a maravilha de um brilho. Aproximei-me. Terreno baldio.

Para minha surpresa, o único ruído era o de um leve crepitar, do fogo a consumir folhas secas, pedaços de madeira e de papel. O encanto das chamas chamou-me mais perto. Sentia o calor. Suava. Com um pequeno graveto, aventurei-me a bisbilhotar as cinzas periféricas.

Sentado ao chão com rosto e roupas encharcados de suor, percebi que a fogueira agora diminuia. O fogo tinha consumido tudo, deixando para trás apenas as cinzas que me tomavam o tempo. Em meio a elas, alguns poucos focos de calor mais intenso. Um mais próximo cativou-me, não poderia deixar que se perdesse.

Do bolso retirei um bloco de notas que fora meu companheiro de longa data. Sabia mais sobre mim do que qualquer outro. Arranquei-lhe a capa e, pacientemente, alimentei a pequena brasa. Ganhava um pouco de força, mas logo definhava. A primeira folha. Segunda. Terceira. Retrato de uma antiga amiga. Quarta. Quinta. Pedaço de jornal. E assim por diante.

Em poucos minutos, cheguei à última folha, estava em branco como várias outras antes dessa. O fim do bloco. Ali tinham-se ido lembranças de uma vida e os frutos de experiências. E logo aquela pequena brasa se apagou para sempre sobre as cinzas da minha história.

Queimei aquilo que demorei tanto para construir em troca de um monte de cinzas. Coletei os restos possíveis e fui-me dali, chateado. Guardei dentro de um pedaço de pano que salvou-se das chamas, coloquei no bolso e corri para casa, fugindo da chuva que chegava. Aquele pequeno embrulho tornou-se um adorno na minha mesa, minhas lembranças.
Essas foram as primeiras cinzas da minha vida!