fevereiro 22, 2010

Caçador - Capítulo IV - Final

Sábado, 30 de janeiro

Acabei por acordar mais tarde do que de costume. Para minha sorte, meu vôo só sairia à tarde. Rufus já estava de pé, enquanto eu me levantava para tomar um bom banho. Foi um banho revigorante, a mesa do café já estava posta quando saí. Vesti-me e aproveitei aquela pequena refeição, tinha muito que fazer com minhas malas e decidir se realmente voltaria para buscar aquele que era meu prêmio pela caçada.


Muito pensei e organizei durante a manhã. Como num passe de mágica, já era hora do almoço e eu ainda não tinha decidido ou mesmo terminado de preparar tudo. Comi rápido e voltei a meus afazeres, mas a pele do felino ainda era uma grande indecisão. Já que a hora do meu vôo se aproximava, deixei o assunto trancafiado na mente até outra oportunidade.

Saímos um pouco atrasados, o que obrigou Rufus a dirigir um pouco mais rápido. Cheguei ao aeroporto ainda com tempo para um cafezinho de despedida. Sentamo-nos ali em um Cafe e conversamos uns poucos minutos na espera do tempo passar. Meu amigo comentou muito sobre nossa caçada, preferi manter-me calado e apenas concordar com todos os adjetivos usados por ele. Não estava confortável com o assunto tratado e acredito que ele percebeu isso. Logo falávamos sobre trabalho e quando eu voltaria ali para visitá-lo. Enrolei para responder a tudo isso e ficou sem resposta. Era hora do embarque e apressei-me em me despedir e ir em direção ao avião.

Foi um vôo tranqüilo o suficiente para que eu descansasse um pouco mais e colocasse as idéias em ordem. Foram horas de filosofia! Cada vez mais, estava certo que aquele prêmio deveria ficar com Rufus. E foi então, movido pela curiosidade desnecessária, coloquei-me a pensar de quem seria o tiro que matou o felino. Impossível que eu soubesse, fechara meus olhos no momento. Foi o suficiente para me ocupar o restante da viagem.

De volta em casa, encontrei tudo em ordem. Deixei para desfazer as malas depois. Sentei-me na poltrona e voltei a matutar sobre os tiros. Certos momentos, até me alegrei em pensar que poderia ser um dos meus 2 tiros que acertou a caça. Depois, acreditava que tinha errado e que Rufus fora o grande caçador da noite. Adormeci assim. Um leve sono de minutos e os olhos amarelos do felino preenchiam meus pensamentos. O vermelho tingia vagarosamente aquela imagem. Acordei. Tinha tomado minha decisão, mesmo preferindo acreditar que o destino a tomou por mim.

Escrevi uma carta rápida a Rufus, contando da minha chegada e desejando a ele felicidades e que aproveitasse a pele. Era dele agora, se lá voltasse, não seria para buscá-la e me sentiria ofendido se ele insistisse.

Meu sono ficou um pouco prejudicado pelo dia de hoje. Estou aqui em claro, com a carta selada ao meu lado. Creio que chegou a hora de convencer-me que aquela não era minha noite de Caçador e que o prêmio deve ser e outro! Dormir agora e esperar pela próxima oportunidade...

fevereiro 02, 2010

Caçador - Capítulo III

Sexta, 29 de janeiro
A madrugada foi tumultuada. Seguimos aquela primeira pista e acabamos por constatar que era bem nova. A ansiedade estava em alta novamente. Cada passo poderia guardar o encontro com o felino. Pequenas gotículas de suor surgiam em nossas frontes e a leve brisa que antes nos embalava tornou-se mais forte e começava a nos empurrar em direção ao perigo.

Perdi a noção temporal, não sei quanto tempo ficamos nessa labuta. Ruídos quebraram o clima formado. Olhos e ouvidos aguçados. As mãos tremiam inexplicavelmente. Tamanho era o nervosismo que foram quase 2 tiros acidentais. De repente, fomos agraciados com a primeira vista de nosso alvo. Era um jovem felino, garras gastas e uma pelagem brilhante. Os dentes amarelos não nos deixava esquecer sua ferocidade. Ele caminhava lentamente logo a frente, parecia que nos chamava à caçada. Nos posicionamos ali mesmos, deitados sobre a vegetação mais baixa. Preparamos as armas e miramos o alvo. Um tiro certeiro ou voltaríamos para casa sem prêmio. Misteriosamente, nosso felino parou. Posso jurar que ela nos viu, mas ficou imóvel, esperando nossa ação. Esperando a morte! Um calafrio percorreu todo meu corpo. Mantive a postura e a mira.

Sentia o peso daquele olhar amarelo. Meu dedo pesava no gatilho. Não sei se esperava o momento certo ou simplesmente desistira de atirar. Aquele momento cresceu, logo só existia um felino e dois caçadores. Pode parecer estranho, mas acho que fechei os olhos quando disparei, pois não tenho lembranças visuais desse acontecimento. Foram dois ruídos secos.

Tanto eu quanto Rufus atiramos. Um tiro certeiro. Outro nem sabemos onde foi parar. E a nossa caça estava a chão. Toda sua imponência desmoronou! A pelagem amarela ganhou um novo brilho vermelho. Os olhos ainda abertos! Rufus me chamou de volta a realidade pedindo ajuda para preparar nosso troféu para o transporte. Retiramos as víceras tentando não danificar muito a pele. Impressionante como, mesmo oco, ainda era pesado. Com dificuldade, chegamos de volta ao campo aberto por onde viemos. A madrugada parecia se alongar, tentando encobrir nossa ação que começou a me parecer um tanto quanto repugnante.

Com os primeiro raios do sol, alcançamos o carro. Arrumamos o corpo do felino no automóvel. Meu estômago reclamou um pouco, poderia ser a situação toda, mas preferi acreditar na fome. Não demorou muito e pegamos o caminho de volta para casa. Foi uma viagem sem muitas palavras. Mesmo com aquele sentimento, não conseguia esconder meu sorriso de satisfação do sucesso da nossa aventura. Parecia-me que meu amigo tinha o mesmo sentimento. Aproveitávamos individualmente o nosso dever cumprido!


Não demoramos a chegar. O caminho de volta pareceu bem mais curto. Descarregamos o corpo e começamos o ritual de preparação do troféu. Poderia gastar muitas linhas e relembrar minuciosamente todos os detalhes, mas meu estômago não vai me permitir isso. Prefiro deixar registrado que conseguimos uma boa pele, os dentes foram extraídos e tratados. Meu amigo preferiu guardar a cabeça empalhada como troféu. Achei melhor não ajudar na empalhação. Colocamos a pele para secar e guardei comigo os dentes. Já era hora de arrumar meus pertences para realizar a volta para minha verdadeira casa.

Meu amigo faz questão que eu fique com a pele e espere até o dia de levá-la. Estou inclinado a recusar a oferta de ficar até lá, mas aprecio bastante ter esse prêmio. Vou propor que ele cuide do prêmio até meu retorno, que prometo que não demorará muito. Desde o início não me demoraria muito por aqui, tenho assuntos urgentes a tratar. Espero que ele entenda e que aproveite o quanto puder dessa pele!

Agora, vou terminar minha mala. Quero sair cedo amanhã. Não está tarde ainda, anoiteceu agora a pouco, mas a caçada pesa-me nas costas e no coração. Que eu tenha uma boa noite de sono!

fevereiro 01, 2010

Caçador - Capítulo II

Quinta, 28 de Janeiro
Acordei cedo, mesmo sem ter dormido satisfatoriamente. A ansiedade era evidente. Vesti-me. Uma última olhada nas armas e mantimentos. Era ainda madrugada e eu já estava sentado numa cadeira na sala, carregando um rifle e esperando a hora de sairmos. Acho que fiz muito barulho na minha arrumação, pois poucos minutos se passaram e meu amigo apareceu ali na sala, com cara de sono, parecia que acabara de acordar. Ele percebeu a minha ansiedade e, como já havia acordado, começou a se preparar.

Antes do nascer do sol já estávamos na estrada. Foi uma viagem rápida de apenas 3 horas de automóvel, logo chegamos ao local, acompanhados pelos primeiros raios de sol. Ali retiramos tudo do carro, dividimos igualitariamente a bagagem e rumamos por um campo aberto em direção a um conjunto de árvores lá na frente. Era uma caminhada difícil. Muito peso para carregar, terreno acidentado, vegetação alta que quase nos encobria.

Conseguimos espantar toda e qualquer caça que pudesse se esconder em meio aquele mato, tamanho o barulho que fizemos na nossa tragetória. Pela minha contagem, foram 4 quedas minhas contra 5 de Rufus. Alguns arranhões mas nada que pudesse atrapalhar nossa diversão. Rimos um do outro e tentávamos conversar o mínimo possível para não atrapalhar a caça! Esquecemos que cada uma de nossas quedas era acompanhada de muito ruído, não seria uma conversa que causaria problemas.

Finalmente chegamos próximo o suficiente do pequeno bosque. Rapidamente, deixamos todas as armas preparadas para uso, não queriamos perder a oportunidade de voltar para casa com um troféu. Tudo preparado, era hora de sair e encontrar nosso alvo. Pelo que Rufus tinha falado, deveriamos encontrar algum grande felino por ali, já até tinha feito planos em relação a pele e aos dentes.

Saímos caminhando sorrateiramente para dentro do bosque. Parávamos para observar de tempos em tempos, procurando por rastros. Vimos vários tipos de pássaros, muitos, realmente muitos insetos, era impossível pensar devido ao zunido ensurdecedor. A manhã se passou sem que tivéssemos encontrado pista melhor do que as marcas das picadas de inseto em nossos rostos. Paramos e arrumamos algo para comer. Menos de uma hora e já estávamos de volta à caça. Nosso objetivo era encontrar o felino maldito, matando quantos mosquitos fosse necessário para que isso acontecesse!

A tarde não foi muito melhor que a manhã. Nenhum rastro e muitos insetos! A noite caia e continuávamos a procurar. Já está tarde e acabamos de encontrar algumas pegadas. Não parecem recentes, mas já é alguma coisa. No exato momento estamos jantando e estou aqui relatando o dia. Meu amigo já me olha furioso, sei que estou atrasando o retorno à caça mas preciso mesmo fazer relatos.