março 22, 2010

As Cinzas

O dia desde cedo já não parecia normal, talvez fosse os pensamentos do que estaria por vir ou talvez fosse o dia mesmo, em que tudo estava atípico. Não dava vontade de fazer nada, a não ser tentar se livrar dos pensamentos recorrentes. Parecia que quanto mais esforço se fazia para eliminar tais pensamentos, mais eles se firmavam em sua mente. Queria apenas entender o porquê de se sentir daquele jeito. Os desejos eram claros, queria muito poder estar em um lugar no qual não estava presente!
No fundo sabia que em cinzas se transformou o dia que era para ter sido um dos mais memoráveis de sua existência.
Não tinha raiva, nem pensamentos ruins, só estava inconformada com o destino, que mais uma vez decidia por si só uma decisão que tinha que ser pessoal. Sorte? Azar? Não importa, o fato é que aquilo que havia desejado há muito, não se realizaria mais.
Só se sabe que pegou a taça de vinho, sentou-se na varanda e em cada gole foi observando a chuva que insistia em cair como se fossem suas próprias lágrimas, agora sim, podia-se dizer que estava em paz com seus pensamentos.

março 19, 2010

Amor Simples

Um beijo de adeus! Sobre a cama, apenas uns poucos rabiscos, palavras simples e uma mensagem direta. Seria indiscutível se não fossem os borrões e as rasuras. Era de manhã e nossa heroína estava adormecida ao lado do recado. Seu parceiro a deixou ali, tudo pago.

Acordou com um ar jovial. Sentou-se na cama, procurou-o pelo quarto, nenhum sinal. Ao se levantar, percebeu ali o papel. Ali mesmo, tomou-o nas mãos, olhou o ambiente mais uma vez. Entregou-se à leitura. Olhos marejados e um leve sorriso. Poderia odiá-lo, amaldiçoá-lo pela eternidade, optou por um banho demorado.

Os cabelos ainda molhados com a roupa já no corpo. Recolheu seus pertences, apropriou-se das notas deixadas sobre a mesa de canto. Fechou a porta. Trancou o sentimento. Saiu dali direto para o ponto de ônibus mais próximo. Estava longe de casa, gastaria pelo menos duas conduções. Agradeceu o dinheiro deixado por ele.

Horas de balanço e esbarrões. O doce sentimento de se chegar ao lar. As amigas ainda dormiam. Retirou as roupas de trabalho, acomodou-se em seu colchão gasto, mas o mais confortável que poderia desejar. De debaixo da cama, tirou uma caixinha, abriu-a e lá depositou o bilhete que trouxe preso junto ao seio, não antes de dar-lhe um último beijo, sem nem mesmo saber que recebera o seu aquela manhã... Um novo amor a esperava mais tarde.


"In this world that we know
There's nothing that could make
A decent woman of a girl like you"


março 01, 2010

O Sono

O sol escaldante. A brisa fria da noite. O silêncio que cultivava em todos os momento.

Era uma noite sem estrelas. O céu sem brilho ou cobertura. Onde estaria a lua? Teria tirado a noite de folga? Da janela do quarto avistava o outro lado da rua, o céu e era possível espionar a sala dos vizinhos de frente. Pena não ter um binóculo! Acho que o meu sono deva ter convidado a lua para um jantar! Espanto! Da onde surgira aquele gato? Lá estava ele, sentado e imóvel. Aqueles olhos amarelos. Profundos. Vazios.Pernas na cama. Patas na calçada. O dedo contra o vidro fazendo os mesmo movimentos sinuosos do outro lado. O silêncio absoluto. Não mais o bater de asas ou o ranger da madeira. Agora só há silêncio. Até mesmo o vento parara para apreciar o momento. Duas figuras petrificadas. Agora a estática. Nenhum movimento. A árvore da frente, a última brisa a soprar, o verde do fruto que se desprende, o som oco inaudível. Então tudo se estilhaça. E, por fim, restam apenas dois cacos.Estaria ele em um lugar novo? Seria aquilo o que ele tanto temia? O que era aquele gato?

Perguntas... nenhuma resposta audível. E do amarelo tudo se brota. Medo. Angustia. Solidão. Carinho. Sentia tudo, era capaz de sentir o silencio. Os olhos que agora o tocavam. Seriam eles?
E os pedaços se colam. O amarelo se perde, o gato que se foi! Tudo o que perdeu. Os olhos marejados, os punhos fechados, a boca aberta, o silêncio. Os olhos se fecham. O pequeno ribeirão avançando sobre a terra seca.

A luz seguiu os passos do som!
(...)